O L-749A Constellation N120A da Standard Airways, que misteriosamente terminou os seus dias no interior de Sao Paulo (Foto: coleção Vito Cedrini).
Durante o inverno de 1969, um L-749A Constellation acidentou-se no interior de São Paulo. Até aqui nada demais, além de um acidente aeronáutico. Entretanto esse caso é um mistério até hoje, pois o que faria um L-749 americano de uma empresa não regular no interior do Brasil? Para piorar o mistério, seu último voo era suspeito de carregar material ilícito. Em 2007, o amigo Vito Cedrini, nos contou com exclusividade essa história, a qual reproduzimos a seguir.
Conhecendo o Constellation
Os mais novos que não tiveram o prazer de ver "ao vivo" o quadrimotor a pistão modelo 749 "Constellation", fabricado pela Lockheed Corporation com "longo raio de ação" e concebido para satisfazer o aumento de passageiros nas rotas de longa distância no início de 1947. Tinha como concorrência direta os quadrimotores Douglas DC-6 que estavam começando a voar nas rotas domésticas americanas.
O modelo "L-749" era basicamente um "649", equipado com um tanque extra em cada painel externo das asas, o que proporcionava um aumento de cerca de 564 Galões americanos de combustível, aumentando a autonomia em cerca de 1.000 milhas além do incremento no MTOW (Maximum Take-off weight / Peso máximo de Decolagem) de 94.000 para 102.000 libras.
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| Um Lockheed L-749 Constellation da Air France (F-BAZM). (Foto: Dave Welch) |
O primeiro L-749 foi entregue a Air France em 18/04/1947 com o número de construção (c/n) 2512 e matriculado F-BAZI. O L-749 entrou em operação em rotas ligando todos os continentes do mundo, sendo que o primeiro L-749 da Pan American (matrícula NC-86520 c/n 2503) estabeleceu um recorde para um vôo comercial de volta-ao-mundo durante o período de 17/07 a 30/07/1947. Batizado como "Clipper America", o NC-86520 cobriu 22.219 milhas em 101 horas e 32 minutos de vôo na rota: New York/La Guardia via Londres, Karachi, Bangkok, Guam, Midway, Honolulu, San Francisco e finalmente voltando a New York/La Guardia.
O L-749A era uma versão melhorada do L-749 com novos pneus, eixos e cilindros do trem de pouso principal o que aumentou o MTOW para 105.000 libras e posteriormente para 107.000 lbs e consequentemente o peso de pouso de 89.500 lbs. Foi equipado com quatro motores Wright de 2.500 Hp modelo 749-C18BD-1.
A Lockheed utilizava uma designação completa e complexa em suas aeronaves. Para entender, o modelo L-749A-79-12 poderia ser traduzido dessa maneira: L-749A (modelo da aeronave), 79 (modelo dos motores) e 12 (modelo da configuração interna). A Eastern Airlines utilizou também os L-749A com as versões para 50 e 62 passageiros.
O N120A e sua vida conturbada
O L-749A-79-12 "Constellation" c/n 2617 foi entregue a Eastern Air Lines em 22/11/1949 com a matrícula N120A e fleet number 120.
Após mais de 10 anos voando pela companhia americana, em 04/01/1960 sofreu consideráveis danos durante o pouso no Aeroporto Washington-National. A causa foi constatada como uma perda de pressão hidráulica e fluido enquanto voava de Miami para Nova Iorque. O trem de pouso e os flaps tiveram que ser estendidos manualmente na aproximação para Washington e apesar dos indicadores mostrarem que os trens de pouso estavam baixados e travados, o trem direito retraiu-se logo após o toque na pista. Felizmente não houve feridos neste incidente. Após análise foi constatado que o motivo da retração foi causado pela fadiga no cilindro da perna do trem de pouso direito.
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| N120A operando para a Eastern Airlines (Foto: John F. Ciesle, via Airliners). |
Sem condições de voo a aeronave foi vendida para a California Airmotive Corporation(1) em 14/03/1960. Foi reparado e arrendado para a Standard Airways(2) em 12/08/1960 e cinco dias depois do recebimento novamente sofreu danos quando o trem de pouso recolheu-se enquanto estava sofrendo reparos. Foi recuperado e vendido definitivamente para a Standard em 29/08/1961, e em setembro de 1962 foi arrendado para a Associated Air Transport(3). Em 06/06/1963 foi vendido para Casino Operations Inc.(6) que quinze dias após arrendou de volta para a Standard.
Permaneceu "stored" em Long Beach durante o período entre abril de 1964 e março de 1965. Foi vendido para a Trans World Insurance Brokers em 01/12/1964 e para a Las Vegas Hacienda Inc.(7) no mesmo dia! Acredita-se que não foi usado e a aeronave permaneceu em Long Beach até ser vendida para a Jovan Corporation(4) de Opa Locka em 23/08/1966. Novamente foi vendido para a Santa Fe Inc. em 26/12/1967 e por fim para a Trans Southern Corporation(5) em 27/06/1969.
O mistério do N120A no Brasil
Em 04/08/1969 o "November 120 Alpha" pousou em um campo de pouso de uma fazenda perto de Araçatuba, interior de São Paulo. Ao que consta na época, foi descarregada uma carga de cigarros contrabandeados. Logo após o desembarque da carga ilícita, o L-749A tentou decolar, mas acidentou-se durante a corrida de decolagem. O que se presume é que a aeronave tenha sido desmontada logo após o acidente.
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| N120A acidentado em Araçatuba (Foto: via BAAA-ACRO). |
As dúvidas que não querem calar
A famosa revista "O Cruzeiro" publicou algo a respeito deste incidente, mas infelizmente o tempo levou o exemplar da revista e junto a pequena citação. Este episódio deixou diversas dúvidas como por exemplo:
Teria sido mais um problema com o trem de pouso?
O que foi efetivamente feito da aeronave?
Foi apreendida e depois desmontada?
Para onde levaram os "restos"?
Que fazenda era esta e aonde ficava exatamente?
Por onde andou o "120-ALPHA"
1 - California Airmotive Corp.: Era um dos maiores revendores de aeronaves comericias de 2ª mão do mundo, chegaram a passar pelas mãos deles 35 Constellations, 22 DC-6/DC-7 e vários outros tipos de aeronaves.
2 - Standard Airways Inc.: Baseada em San Diego/California, era uma cia. de transporte aéreo não regular formada em 1946 que parou de voar em 01/02/1964. Foi reativada em 1966 mas encerrou definitivamente as operações em 1969.
3 - Associated Air Transport: Com a sede em Miami/Florida era uma cia. de transporte aéreo suplementar que começou a voar em 1959. O famoso piloto Herman R. "Fish" Salmon que foi piloto de provas do Constellation chegou a ser presidente e co-propietário da empresa em 1962. Em 09/03/1962 a FAA retirou o Certificado de Operação e a cia. fechou.
4 - Jovan Corp.: Era um revendedor de aeronaves usadas de Miami.
5 - Trans Southern Corp.: Sediada em Opa Locka/Florida operava com leasing de aeronaves
6 - Casino Operations Inc.: De Las vegas, Nevada. ao que consta era uma financeira ou a "holding" da Standard Airways.
7 - Las Vegas Hacienda Inc.: Com sede em Burbank, California e Las Vegas, Nevada. Era uma companhia operadora indireta que efetuava vôos de cerca de 7 cidades americanas a partir da costa oeste dos USA e de Nova York para Las vegas e fretamentos para o Dunes Hotel (Las Vegas). Encerrou as operações em 1962 devido a uma decisão da CAB americana. O N120A (L-749A) e um L-049 ainda encontravam-se registrados em nome desta empresa em 1965, mas eram arrendados para outros operadores.
Autor: Vito Cedrini - especial para o Site AeroEntusiasta
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Posteriormente os amigos Maurício Fontes e José Cursio (in memoriam) publicaram mais alguns detalhes no AeroFórum.
Via Maurício Fontes
O pouso do N120A aconteceu na pista de 830m da Fazenda Melo, localizada na pequena cidade de Auriflama, próxima do município de Araçatuba/SP, nas primeiras horas do dia 1/AGO/1969, uma sexta-feira. Entretanto, o avião somente foi localizado no domingo, completamente vazio, sem poltronas e nenhum sinal que indicasse a carga transportada.
Acredita-se que a carga era de 14 toneladas de cigarros e bebidas, retirada a tempo e transportada para um local ignorado. A capacidade do aparelho era para 25 toneladas. A hipótese de contrabando de armas estava afastada. As autoridades acreditavam que a carga fosse procedente do Peru ou do Paraguai. O piloto e um fazendeiro foram presos. Segundo um vizinho da fazenda, o mesmo avião já pousara ali diversas vezes.
A causa do acidente foram as avarias que o avião sofreu no trem de aterrisagem ao decolar do campo clandestino da fazenda após descarregar a carga, além de um incêndio irrompido também na cabine de comando. Os peritos do Ministério da Aeronáutica acreditavam que os tripulantes ficaram feridos, em face da quantidade de sangue encontrada na cabine. O avião somente teria possibilidades de voo dentro de quatro meses, tempo necessário para a chegada de peças importadas. Todavia, outra fonte afirmava que a aeronave passaria a pertencer a Fazenda Nacional e seria leiloada tão logo terminasse o inquérito aberto para apurar a origem da carga e suas finalidades. Não se sabe, ainda, que fim realmente levou a aeronave. As investigações estavam a cargo da 4ª Zona Aérea de São Paulo.
Fontes:
Correio da Manha - 5 e 6/AGO/1969
Revista Veja Nº 49 - 13/AGO/1969
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via José Cursio
Toneladas de Mistério
Eram armas, era uísque? eram cigarros? Ninguém sabe, passada a primeira semana de investigações, o que trazia o Super Constellation que aterrou clandestinamente em Araçatuba, São Paulo, as primeiras horas do dia 1º de agosto. De certo, por enquanto, sabe-se apenas que o avião pertence agora à Fazenda Nacional e será leiloado tão logo termine o inquérito aberto para apurar a sua origem e suas finalidades.
A 4ª Zona Aérea mantém sigilo sobre as investigações, sobre prisões já feitas e sobre o depoimento de vinte pessoas já ouvidas, entre ela Wilson Campana, dono da fazenda Melo, onde o avião pousou. Um defeito no trem de pouso de aterragem impediu a decolagem - e criou o mistério. João, um, peão despedido por Wilson Campana, deu a única informação conhecida sobre o caso. Antes de ir a policia, João contou a um jornalista da cidade que viu um avião pousar, sob os faróis de seis caminhões. Durante várias horas, caixotes muito pesados, segundo João, foram transportados para os caminhões. Disse ainda que outros aviões desciam na Fazenda Melo. Depois de despedido, ele habituou-se a anotar os prefixos desses aviões: é capaz de citar 53 deles.
Hábito do contrabando
Araçatuba 100.000 habitantes, próxima a fronteira com o Mato Grosso, é uma cidade de muitas fazendas. Em quase todas elas há um campo de pouso, na maioria sem preencher
as exigências da Diretoria de Aviação Civil ou simplesmente clandestinos. Cento e dezesseis aparelhos pequenos voam livremente entre Araçatuba e cidades do Mato Grosso, em condições ideais para o contrabando com o Paraguai e Bolívia.
Uísque e cigarros estrangeiros costumam chegar aos grandes centros de consumo pela rota de Araçatuba. Mas o Super-Constelltion N120A, estirado junto a um curral e uma casa rústica, constitui um caso especial. É grande de mais (capacidade para 25 toneladas) para a pista de 830 metros da fazenda, perigosa até para aviões de tamanho médio. Na cidade, habituada ao contrabando, acredita-se que o Super-Constellation carregava armas e que os contrabandistas podem ser também terroristas. Os caixotes muito pesado, descritos por João, contribuem com essa hipótese.
Cerco total
O avião estava completamente vazio, sem poltronas nem sinais que indicassem a carga transportada. Os contrabandistas ou terroristas aumentando o mistério, conseguiram uma boa vantagem em tempo. Deixaram a fazenda na madrugada de sábado e o avião só foi descoberto na noite de domingo. Mesmo assim, ninguém em Araçatuba acredita que eles escapem ao cerco montado pela policia e Exercito. Na sexta-feira, um motorista de caminhão que havia transportado parte da carga do avião, tentou furar o cerco: foi preso.
Antes a Base Aérea de Cumbica já havia recebido dez pessoas presas em Araçatuba.
Sessenta soldados do 4º BC, de Lins. Isolaram a fazenda, enquanto as policias Rodoviária e da FAB controlaram as estradas e os aeroportos da região. Oficiais da 4ª Zona Aérea continuam tomando depoimento de pessoas que possam levá-los aos contrabandistas. Guardam sigilo tão forte que um jornal de Araçatuba, “Tribuna da Comarca” só tinha essa noticia para seus leitores, no 6º dia do inquérito: “Prossegue a FAB investigando a aterragem de um Constellation em uma fazenda desse município. Há sigilo em torno do assunto. A população está na expectativa dos esclarecimentos”
Fonte:
Revista VEJA nº 049 > 13 de agosto de 1969 > pag. 25
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